Peço desculpas à Stéphane Hessel por plagiar o título de seu manifesto, mas acredito que ele não se importaria, pois deve pensar que sua iniciativa pode ser multiplicada.
Como alguns sabem, coordeno o Núcleo de Economia Alternativa (NEA) que desenvolve trabalho de pesquisa, ensino e extensão voltado para formas alternativas de práticas econômicas e especula sobre a viabilidade da transformação social.
Um dos trabalhos que realizamos é o apoio à comercialização dos produtos da agricultura familiar, em particular, dos assentamentos da reforma agrária, na perspectiva da sustentabilidade social, ambiental e da segurança alimentar.
Na prática, busca-se através de um ponto de comercialização da economia solidária (Contraponto), a venda dos produtos agroecológicos e o abastecimento do sistema dos restaurantes universitários, com produtos desta natureza, por agricultores dos assentamentos.
Evidentemente, como é papel da Universidade nesta prática extensionista, está se buscando a geração de conhecimento que possa servir a formulação de políticas públicas, bem como, a discussão de elementos centrais da economia como a teoria do consumidor.
Como parte da estratégia de atendimento dessa demanda socialmente orientada, programamos, junto com colegas da engenharia de produção a realização de uma feira agroecológica ao lado da Contraponto (espaço ocioso) a ser feita por mulheres do assentamento de Viamão, filhos de Sepé. Esta feira seria semanal.
Como de praxe, fizemos uma solicitação à Superintendência de infra-estrutura, garantindo a não utilização do estacionamento e a limpeza pós realização da feira.
Para surpresa nossa, a demanda foi negada e depois de inúmeras tentativas de contatar os responsáveis, estes, concederam a graça de nos receber.
Surpresa novamente! Deparamo-nos com um doublé de funcionário do capital e chefete latino-americano, na robusta pessoa do Professor Tamagna. Funcionário do capital nos propósitos e chefete no método autoritário.
O referido professor ao ser interrogado sobre o direito que tinham os Bancos de espalhar seus quiosques pelo pátio da Universidade, disse que estes tinham direito porque pagavam. E quando perguntado sobre a existência de regras escritas a este respeito, alegou que neste assunto, quem mandava era ele.
Se alguém tem dúvida que para alguns personagens da administração central da universidade, esta deve funcionar, exclusivamente, para o andar de cima da sociedade, a situação acima relatada fala por si só.
Aliás, recordando das posições do Professor Tamagna no Conselho Universitário, estas, eram sempre alinhadas com o bloco da UFRGS/S.A.
Tivemos, recentemente em nossa Universidade, um seminário da corrente universitária “Universidade Popular”, que discutiu ampla e profundamente as dificuldades da Universidade ser plural quanto as suas finalidades, assim muito mais dificuldade teria de ser uma instituição voltada para os interesses da maioria da população.
Portanto, o fato antes relatado, mostra o quanto estão seguros os setores que propugnam uma Universidade voltada aos interesses do capital, com métodos que privilegiam os critérios de mercado (quem paga pode) e exclui, despudoradamente, “esta gente diferenciada” que ousa querer fazer da Universidade um espaço que também é seu, que estuda suas questões, que os acolhe para o diálogo de saberes e que os assume como membros do corpo discente.
Se permitirmos que atitudes truculentas como esta tenham livre curso, outras bandeiras democráticas e inclusivas pelas quais lutamos ficarão cada vez mais distantes.Portanto indignai-vos e ajam em conseqüência.
Carlos Schmidt
Coordenador no NEA
Professor da Faculdade de Ciências Econômicas
29/09/2011 at 13:14
Seria interessante fazer um abaixo-assinado para que a comunidade pudesse manifestar-se a favor da feira.
29/09/2011 at 21:22
É, impressionante, aí não dá para querer!! Passamos, aqui em Santa Maria, por algumas dificuldades, quando da instalação de uma feira, não nas dependencias da UFSM, mas fora dela, na faixa, o que, depois de muita conversa se conseguiu. Se cabe um conselho, embora a má fama deste, não desistam!!
30/09/2011 at 10:06
Lamento professor Carlos, a decisão da sua instituição.Por aqui apesar de sermos considerados o final do mundo, a UFMS acatou o pedido da Incubadora de Cooperativas populares e estamos com a feira agroecologica semanal no corredor central da Instituição.A proposta tem trazido animo para academicos e professores e a feira se tornou ponto de encontro dos pesquisadores que, se depender do animo, teremos pesquisa por muito tempo.É no minimo incoerente . Mirian ITCP/UFMS
01/10/2011 at 10:06
Prezado Prof. Carlos:
Além da indignação, sugiro que sejam realizadas outras ações no sentido de mobilizar a comunidade acadêmica sofre o fato ocorrido. A ADUFRGS, ASSUFRGS, DCE têm conhecimento disso?
01/10/2011 at 11:10
Professor;
Realmente a postura de muitas cabeças dirigentes da UFRGS ainda pensam que ela é uma instituição pública, mas a serviço da elite e as vezes parece que tem medo do povo das classes mais abaixo se apropriarem desta estrutura.
A luta por uma UFRGS realmente pública, totalmente gratuita, ainda está bem presente, mas infelizmente nossos Diretórios de Estudantes não se levantam contra isto, preferindo se mobilizar apenas para “festas” e outras questões do seu umbigo.
Já espalhei pela internet, quem sabe com essa ferramenta consigamos levar essa indignação mais longe e ampliar a luta contra estes que se acham donos da UFRGS pública.
Abraço.
04/10/2011 at 17:45
É de fato assustador a forma truculenta e autoritária de que se servem alguns funcionários que “pessoalizam” o bem público, e o direcionam conforme seu entendimento. Venho, desde Recife, no Campus da UFPE, ser solidário ao NEA/UFRGS (já que fui também estudante no RS), lembrando que em nosso Campus há sim uma feira agroecológica e da ecomonia solidária, semanalmente, fato que nos trouxe uma requalificação no uso do espaço público, trazendo para o Campus a comunidade em geral, e servindo de espaço de estudos, de trocas e de qualidade de vida.
Consito-os a permanecer insistindo, para que todas as Universidades Federais se tornem públicas de fato.
inté +
João Ricardo