(trabalho produzido pelo bolsista do NEA, Cássio Luciano Becker e apresentado no 10° Salão de Extensão da Universidade Federal do Rio Grande do Sul)

SÍNTESE: As atividades de extensão às quais este trabalho relata tiveram como objetivo a troca, entre as entidades de economia solidária incubadas e o NEA/INCOOP/UFRGS, de informações concernentes aos registros extracontábeis e administrativos, aos registros de insumos e produtos estocados e ao planejamento financeiro.

Segundo a filosofia do núcleo, a forma de execução destas ações inclui as fases: aprender, avaliar e socializar as melhores técnicas, baseadas na criatividade dos próprios empreendimentos, através de redes de cooperação.
Palavras-chave: planejamento financeiro, registros extracontábeis.

RESUMO: Em empreendimentos autogestionários como os da economia solidária busca-se difundir as informações relativas à gestão. A razão para isso é que embora as tarefas sejam divididas, o planejamento, o controle e a tomada de decisões são coletivos.

Assim, para que seja possível a apreensão dos conhecimentos pelo grupo, é necessário simplificar os registros e fazer cognoscíveis os relatórios técnicos. Mais que isso, deve-se estruturar a apresentação e o processamento das informações de modo a refletir a realidade das entidades e suas características singulares.

Segundo João Paulo Santos Lima[1], as ferramentas formais de gestão, como por exemplo a contabilidade, são excessivamente complexas e minuciosas e têm origem nas relações altamente hierarquizadas dos sistemas produtivos inseridos no modelo doutrinário-econômico atualmente dominante.

Paul Singer[2], economista, sociólogo e educador afirma: “A contabilidade tem por função coletar, processar e inter-relacionar os resultados monetários e não-monetários de todas as atividades da empresa. Há uma contabilidade que se insere no sistema capitalista, em que as informações fluem de baixo para cima e as ordens de cima para baixo. As contas são feitas para que a cúpula-dirigente possa tomar decisões. Outra é a contabilidade que se insere na economia solidária, em que é dever dos dirigentes informar a base – o conjunto de trabalhadores – sobre a situação da empresa, para que esse coletivo possa tomar decisões. É a base que dá as diretrizes à administração que ela escolheu e pode substituir quando achar que não está correspondendo”.

Frequentemente, a criatividade dos grupos produz ferramentas simples de gestão que, aprimoradas com o uso, tornam-se eficientes para as suas necessidades.

O empreendimento “A” costuma registrar as remessas de mercadorias em consignação e as vendas destas mercadorias em um caderno onde as remessas são registradas em vermelho e os recebimentos de vendas registrados em azul. O livro caixa funciona de forma semelhante, com o registro das saídas em vermelho e das entradas em azul.

A cor vermelha sinaliza a necessidade de atenção que o grupo identifica merecer a situação em que a posse das mercadorias foi transferida, sem que tenha sido transferida, também, sua propriedade. Em contrapartida, a situação da resolução de transferência de propriedade e do conseqüente recebimento das vendas merece a calma transmitida pela cor azul.

Segundo Iudícibus[3], as contas de compensação integram sistema extracontábil e que podem ser registradas em livros auxiliares.

A dificuldade encontrada dizia respeito ao fechamento das contas, que pôde ser resolvida pela confecção de fichas separadas para cada produto.

Como a entidade engloba diversas oficinas de produção, sugeriu-se que as fichas fossem catalogadas em arquivos, possibilitando o controle individual de cada oficina.

Ainda estão em processo de análise os empreendimentos “B” e “C”. O empreendimento “B” é constituído como uma cooperativa mista de produção e trabalho e o empreendimento “C” é uma cooperativa de produção de alimentos.

Quanto ao planejamento financeiro, o método empregado foi o da CAPINA[4]. Este método nos foi sugerido pelo ex-bolsista do NEA, Martin A. Moreira Zamora.

O primeiro passo para a avaliação financeira é o levantamento dos custos fixos (relativos à existência da atividade) e variáveis (relativos aos produtos) extraídos do livro caixa. Esse procedimento é realizado com todo o grupo ou com representantes do grupo que se comprometem a repassar os conhecimentos aos demais integrantes.

Logo a seguir, empregam-se as fórmulas abaixo para encontrar o ponto de equilíbrio, ou seja, a quantidade mínima de produtos a ser vendida para igualar as receitas aos gastos.

PV – Dpp = PLV

PLV – CV = MC

PE = CF / MC

Onde:

PLV = preço líquido de venda.

MC = margem de contribuição.

CV = custos variáveis.

CF = custos fixos.

Dpp = despesas proporcionais ao preço (impostos e comissões).

PE = ponto de equilíbrio.

PV = preço de venda.

Para exemplificar tomaremos o planejamento financeiro de um produto cujo preço de venda seja R$ 30,00 (trinta reais), o ICMS tenha alíquota de 18%, os custos variáveis somem R$ 20,00 (vinte reais) e os custos fixos do empreendimento totalizem R$ 690,00 (seiscentos e noventa reais).

Desta forma o preço líquido de venda é R$ 24,60 (vinte e quatro reais e sessenta centavos):

PLV = PV – Dpp = R$ 30,00 – (R$ 30,00 x 0,18) = R$ 24,60

A margem de contribuição (que contribuirá para cobrir os custos fixos e formar o lucro) é R$ 4,60:

MC = PLV – CV = R$ 24,60 – R$ 20,00 = R$ 4,60

Assim, o ponto de equilíbrio é atingido ao vender 150 unidades:

PE = R$ 690,00 / R$ 4,60 = 150 unidades.

Porém, se considerarmos a margem de contribuição como porcentagem do preço líquido de vendas, teremos o valor a ser vendido para cobrir os custos (R$ 3.690,00):

MC % = (R$ 4,60 x 100) /  R$ 24,60 = 18,7 %

PE = R$ 690,00 / 0,187 = R$ 3.690,00

A gestão de empreendimentos solidários é um assunto que não se conclui em um único trabalho.

As diferenças sociais entre os grupos e entre indivíduos integrantes de um mesmo grupo ditam os métodos e ferramentas a serem empregados na administração.

São diferenças a serem consideradas, por exemplo, o grau de instrução, a presença de membros não-alfabetizados e o domínio que possuem de elementos de matemática básica, entre outras diferenças de caráter organizacional.

Os empreendimentos de economia solidária têm por filosofia a educação de seus sócios, associados ou cooperantes. Desta forma, a gestão de empreendimentos solidários é um trabalho constante de avaliação e evolução.


[1] A contabilidade e as cooperativas populares autogestionárias – uma contribuição à democratização da gestão. In: A gestão da autogestão na economia solidária. São Paulo: ITCP – USP (Org.), págs. 67-72.

[2] SINGER, Paul. A economia solidária como ato pedagógico. In: KRUPPA, Sonia Maria Portella (org.) Economia solidária e educação de jovens e adultos. p.18

[3] Contabilidade introdutória. São Paulo: Atlas, 1977. pág. 186.

[4] Associação civil Cooperação e Apoio a Projetos de Inspiração Alternativa.