Mesa temática:
Saúde Mental e Organizações Populares
Autora: Thaís dos Santos Leite*

Economia Solidária: design e desenvolvimento humano

Resumo
Este artigo faz uma análise do processo de inserção do design na produção artesanal popular através da minha experiência na ITCP da UFRGS com o grupo de Economia Solidária GerAção POA. O grupo é formado por usuários do serviço de saúde mental do município de Porto Alegre e está passando pelo processo de formação de associação. Os Resultados apontam para a valorização das capacidades criativas individuais dos associados numa perspectiva de contribuição para o trabalho coletivo através da sustentabilidade social e ecológica.

Palavras-chave: Design, Economia Solidária, Saúde Mental, Cultura Popular,. Desenvolvimento Humano

Introdução

No contexto nacional atual, é crescente a taxa de desemprego. Para aqueles que estão a margem do mercado de trabalho convencional, o artesanato surge como uma das alternativas viáveis de geração ou complementação de renda. Paralelamente, o acirramento das disputas comerciais elevadas ao nível de mercado global leva a aumentar a consciência da necessidade de que os produtos artesanais alcancem um melhor padrão competitivo e que isto não será alcançado apenas com a racionalização e a otimização da produção, com a redução dos custos e melhoria da qualidade. Competir com produtos asiáticos de qualidade aceitável e preços muito mais baixos, somente será possível quando se oferecer algo diferente, melhor concebido, que se comunique melhor com a motivação e consciência dos consumidores. No caso das pessoas que sofrem com transtornos psíquicos a marginalização perante ao mercado capitalista é agravada. Muitas vezes, eles não se enquadram no padrão de funcionário exigido pelo sistema e por isso são afastados ou nem chegam a inserir-se no mesmo.
Diante desses fatos, se faz necessário criar uma nova via de desenvolvimento retirando do mercado o protagonismo de todas as decisões e buscando em ações compartilhadas entre sociedade civil e governo a construção de uma sociedade mais harmônica e igualitária.
Segundo Paul Singer, no trabalho associativo, a efetivação dos princípios solidários só é possível através do exercício de novas formas de organização de trabalho e de relação com a produção diferentes da proposta de Taylor (Organização Científica do Trabalho (OCT)) desenvolvida no início do século XX. Além disso, esses empreendimentos dependem de instrumentos de fortalecimento do poder popular e da viabilidade econômica. Somente se atingidos estes objetivos, a economia solidária deixará de ser uma economia marginal e tornar-se-á uma organização econômica, construindo novas formas de relações com a saúde e o trabalho que possibilitem uma organização do trabalho controlada pelos trabalhadores.
Nesta busca, a arte popular surge como uma fonte autêntica e plena de vitalidade. É importante fazer uma pequena reflexão sobre a questão da identidade cultural e seu papel e importância. A identidade de um indivíduo não estaria ligada apenas a um território e sim a um período de sua história. O sentimento que cada ser humano experimenta está ligado também ao meio em que está inserido, às suas sucessivas escolhas. A partir de suas opções individuais podemos então falar de identificação cultural que com o tempo pode vir a configurar um identidade própria.
A GerAção POA, Oficina de Saúde e Trabalho é um serviço público ligado à Secretaria Municipal de Saúde da Prefeitura de Porto Alegre, atende usuários do serviço de Saúde Mental e do Trabalhador, assessora grupos de geração de trabalho e renda na comunidade e realiza oficinas de artesanato com acompanhamento dos funcionários da saúde. Neste local, não existe medicação e nem a aparência de um posto de saúde. Situa-se em uma avenida movimentada de Porto Alegre, onde o acesso de ir e vir é facilitado. O ambiente é um espaço terapêutico de cidadania e inclusão social, que estimula o desenvolvimento de atividades, a socialização e a inclusão no mercado formal ou informal de trabalho. Essas atividades estão relacionadas à aprendizagem, produção, vendas e gerenciamento, sempre orientadas para a promoção da autonomia do usuário de saúde mental que produz artesanato de papel reciclado, cartonagem, serigrafia, bijuterias e acessórios. A Oficina trabalha de acordo com a Economia Solidária, onde os produtos e seus produtores participam das feiras de artesanato do município. Desta maneira, há possibilidade dos usuários circularem em vários locais da cidade, ampliarem os laços sociais e ao mesmo tempo em que trabalham, produzem e dividem os ganhos.

Metodologia

Através da Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares da Faculdade de Ciências Econômicas da UFRGS, meu trabalho como designer teve acesso a este grupo. Em princípio, combinamos que faríamos encontros semanais, em que eu participaria das reuniões de concepção do design da Agenda Porto Alegre na Memória levando idéias, para serem discutidas e experimentadas. Percebi que ao mesmo tempo em que eu levaria novas ideias, era importante ficar atenta ao aspecto humano dos usuários de saúde mental, procurando entender os seus processos de criação, trabalho, interesses individuais e coletivos, pois apesar de o grupo estar interessado em gerar renda, a principal meta é a terapia ocupacional que proporciona prazer e afasta o sofrimento psíquico. Busquei referências em arteterapia que pudessem contribuir para a minha atuação.
Segundo a arteterapeuta Angela Philippini, as experimentações plásticas devem oferecer facilidade operacional, para que não sejam agravadas as defesas e resistências naturais ligadas a criatividade. Por isso, as atividades deveriam propiciar um clima de experimentação prazeroso e lúdico, sem exigir desempenhos complexos. Alguns dos integrantes do grupo já realizavam atividades em artes plásticas e possuem uma produção bastante rica, no entanto, outros tiveram pouco contato com este meio de expressão.
Minha escolha foi redirecionar o olhar do indivíduo para dentro de si mesmo, buscando na cultura pessoal as bases para a criação de um novo produto. Segundo designer Eduardo Barroso Neto, esta atitude pode revelar a riqueza criativa e ingênua do artista popular, e neste caso, também daqueles que sofrem transtornos psíquicos, cujo olhar pouco contaminado por modismos pode oferecer ideias novas, despojadas de vícios e referências exógenas. Portanto, o passado deve servir de referência e inspiração para o presente e o preço a ser pago para a produção não tem que ser a exaustão dos recursos naturais e o desaparecimento de tradições. O design deve ser entendido como uma forma de solução de problemas tendo como principal objetivo de sua intervenção compatibilizar os interesses e necessidades daqueles que produzem com aqueles que consomem.
No entanto, é importante retomar a consciência de que este trabalho se direcione para além do foco mercadológico, como cita o professor Carlos Schimidt, coordenador do referido projeto, em seu mais recente artigo: Autonomia, mercado e reciprocidade: contradições e complementaridades no Movimento das Mulheres Camponesas (MMC) de 2009..
Partindo de uma pesquisa de Marcel Mauss que resultou em um texto denominado “Ensaios sobre a Dádiva” (MAUSS, 1990) onde as relações sociais e econômicas percebidas em povos arcaicos aponta para um outro papel da transferência de bens de um indivíduo para outro, onde ao contrário da troca mercantil o centro do interesse é o outro e não o objeto em questão. Neste tipo de relação o indivíduo busca o reconhecimento e não a satisfação do interesse material. O ato de doação desenvolve uma dinâmica de reciprocidade, uma relação empática entre pessoas, subjetiva, diferente da impessoalidade da troca mercantil, na qual as relações comerciais pela internet seriam o exemplo mais extremo.

Processo

Seguindo esta lógica, minha primeira iniciativa foi fazer um levantamento dos produtos produzidos pelas diversas oficinas e das agendas produzidas nos anos anteriores pela GerAção POA. Ao fazer uma análise, identifiquei alguns problemas entre a proposta que se tentou colocar em prática e o que foi comunicado ao consumidor. Entre os aspectos que me chamaram a atenção foi a capa e a encadernação que eram feitas com plástico e espiral comuns; Os desenhos eram feitos a partir traços copiados pela sobreposição de papel vegetal em fotografias; As cores eram muito misturadas e em tons neon; O excesso de traços e de cores ficavam poluídos visualmente, identificando-se pouco com a organização do grupo e com a proposta ecológica que o mesmo apresentava. O “miolo” utilizado era de papel clorado (branco). A tinta serigráfica utilizada era a base de solvente, bastante tóxico para a saúde de quem manipula o produto e ainda mais para aqueles que trabalham com ela. O diagnóstico dos artesãos era de que o produto teve pouca saída, sobraram muitas unidades, apesar de a produção ter sido baixa. Como aspecto positivo, era boa disposição para o trabalho e visualização da necessidade de aperfeiçoar o design do produto e portanto, a expectativa de mudança com a participação da Incubadora.
A partir desta constatação, propus ao grupo que fizesse um laboratório para testar um novo material para a capa, o algodão cru, matéria-prima recebida gratuitamente (resíduos da UNIVENS – cooperativa de confecção da Economia Solidária). Percebi que houve um grande empenho, vários tipos de suporte, cola e maneira de trabalhar o tecido foram testados. Porém, o tecido não se adequou bem e não teria muita resistência em um produto a ser utilizado no dia-a dia. Observei que um dos suportes que o grupo estava utilizando para fazer os testes era o recouro, um material elaborado com resíduos de couro e papelão. A indústria coureira apresenta um grande impacto ambiental, devido aos agentes químicos que são inseridos em sua produção, por isso o resíduo de couro é um grande problema se lançado diretamente ao meio ambiente. Transformado em recouro, os danos ambientais da produção coureira não diminuem, porém a reutilização da matéria atenua os impactos ambientais da cadeia de consumo. Propus, então, que a matéria-prima da capa fosse o recouro, material resistente, fácil de ser trabalhado, bonito, mas simples e de baixo custo. O grupo achou a proposta interessante e resolveu levá-la adiante. Uma das terapeutas ocupacionais encontrou um modelo beneficiado de nível e custo intermediário – a vantagem seria uma maior padronização, redução de trabalho e melhor qualidade em comparação ao recouro não beneficiado a um custo baixo. Acompanhando a proposta do recouro, tivemos que pensar a encadernação. Neste caso, nos pareceu mais viável e prática a inserção do airô metálico, com uma boa solução visual.
Durante o período de experimentações de novos materiais também seria decidido o tema a ser trabalhado para a Agenda 2009 Porto Alegre na Memória. A decisão foi a Imigração Açoriana, a mais expressiva na cidade. O grupo Oficineiros e Poetas realizou uma pesquisa sobre os monumentos e prédios da cidade que tiveram influência açoriana. Entre eles destacam-se: Igreja Nossa Senhora das Dores, Solar dos Câmaras, Ponte de Pedra, Mercado Público, Monumento aos Açorianos e Museu Joaquim José Felizardo. A partir dessa pesquisa decidimos, em reunião, que os integrantes que estivessem aptos a visitar e fotografar estes pontos seriam acompanhados por uma estagiária de terapeuta ocupacional, por mim e uma outra nova integrante da Incubadora, também da área do design. Acompanhando essas visitas, procuramos estimular a percepção visual para a questões de luz e sombra, composição, cores e até mesmo sensações do lugar visitado. A relação da Incubadora com os usuários foi se “costurando” a cada encontro.
Uma idéia que surgiu no grupo, foi a de produzir a agenda em dois tamanhos, o tamanho menor do que o convencional era solicitado pelos consumidores das agendas dos anos anteriores. Uma das minhas propostas também foi a substituição do papel clorado do “miolo” por papel reciclado industrial. Houve dificuldade em encontrar uma gráfica que produzisse os dois tamanhos de miolo em papel reciclado artesanal não clorado. Mas depois de muitas pesquisas, o grupo, enfim, conseguiu encontrar uma gráfica que atendesse a estas expectativas.
A partir das fotografias construídas pela visão dos usuários de saúde mental sobre os prédios e monumentos, foram realizadas oficinas de desenho. Diferentemente dos anos anteriores, propus que os desenhos fossem feitos a mão livre, e que se economizassem linhas para tentar deixá-los visualmente mais limpos, simples e que também que facilitassem uma impressão serigráfica de boa qualidade. Levei como referência, o artista brasileiro Leonilson1 que destacou-se na década de 80, principalmente pelos seus desenhos. Apesar de encontrar um pouco de resistência, por parte dos usuários, insisti que tentassem fazer o desenho a mão livre, pois um traço “torto” não necessariamente significa um traço errado, tanto pelo contrário, um gesto livre pode ser muito mais instigante, além de ser muito mais sincero de acordo com a proposta. E a proposta aqui é valorizar a expressão do autor como algo que se destaca diante do padrão de mercado. Mesmo com estas referências o grupo estava livre para representar os monumento da maneira que quisessem, não havendo uma maneira certa ou errada de se fazer. O processo de desenho, neste momento, foi uma pesquisa individual. A inscrição da capa também teve a arte feita a mão livre por um dos integrantes do grupo. Entre os desenhos realizados foram escolhidos quatro que estiveram mais de acordo com a proposta de representar a identidade do grupo e diferentes monumentos.
Para a pesquisa de cores interessaram-lhes aquelas que remetiam a tons naturais. Fiz um levantamento dos designs dos produtos que estão no mercado e apresentam uma proposta em eco-design. Levei referências (revistas ARC Design) para a pesquisa de cores realizada com o grupo. Esses encontros levaram algum tempo até optarem pelos tons terrrosos como padrão.
Para os marcadores de página, o grupo de sachês pesquisou e descobriu que o fuchico foi trazido pelos açorianos em seu artesanato. A cor do tecido do fuchico seria então marrom com estampa no mesmo tom e tecido de algodão cru ou marrom liso com fita mimosa marrom, seguindo a linha de cores estabelecida para a agenda. Além deste modelo, sugeri que houvesse um outro modelo masculino. Havia uma oficina de cerâmica acontecendo naquele período e propusemos que fosse feito uma plaquinha de cerâmica com a marca “G” em espiral do grupo GerAção POA, pendurado por fio encerado, como se fosse uma etiqueta.
Quanto à tinta serigráfica, pesquisei com o Núcleo de Design de Superfície a possibilidade de substituição da tinta anterior, a base de solvente, para uma outra que fosse a base de água e própria para papel. Soube de algumas lojas que comercializavam e indiquei-as às terapeutas do grupo. Apesar de a tinta demorar um pouco mais para secar, ela apresenta muitas vantagens ecológicas e não causa riscos à saúde. As cores seriam as seguintes: marrom escuro para o papel reciclado de tom terroso claro e bege claro para o papel reciclado de tom terroso escuro. As tintas adquiridas possuíam a seguinte fórmula: resina acrílica, pigmentos, aditivos e água. Os resultados da troca foram muito positivos na produção, pois o trabalho foi mais organizado e não teve o incômodo do cheiro tóxico ou da utilização de solvente químico para fazer a manutenção e limpeza.
Quanto aos papéis reciclados que estavam sendo feitos para as inserções na agenda, verificamos que não estavam de acordo com a cor proposta em reunião. Ao invés de marrom, a folha estava saindo roxa. O grupo insistiu que se continuasse com esta para não desperdiçar o trabalho e o material gasto. No entanto, dissemos que este fugia da proposta inicial, de usar tons terrosos e propusemos que fizessem novos papéis para a agenda e usassem o roxo para os produtos que acompanhariam a agenda: como blocos e pastas. O grupo acabou aceitando. Foi difícil chegar a cor desejada, mas enfim conseguiu-se e não houve perda de material.
O plano de montagem das inserções artesanais na agenda foi feito juntamente com as terapeutas, como uma amostra para que a gráfica montasse as restantes e encadernasse-as com o airô. Os maiores problemas de produção da agenda foram com a gráfica que atrasou para entregar os pedidos, muito além do prazo combinado e reduziu em alguns milímetro a borda da capa. Decidiu-se que para o próximo ano voltariam a trabalhar com a CALABRA, gráfica que possui uma proposta social de integrar jovens em situação de risco na produção de papéis reciclados, e que estaria produzindo o “miolo”papel reciclado industrial só que apenas em um tamanho.

Resultados

O lançamento da Agenda Porto Alegre 2009 – Açorianos, ocorreu a partir das 17hs do dia vinte e sete de novembro do ano 2008 no Museu Joaquim José Felizardo de Porto Alegre. Neste dia, o grupo Oficineiros e Poetas organizou um Sarau poético. Foi apresentado o vídeo do processo de produção da Agenda e vendidas, sendo também comercializados outros produtos da linha Porto Alegre na Memória – Açorianos.
Neste primeiro ano, o meu processo de trabalho ocorreu de forma gradativa. Tanto a ITCP, quanto a Geração POA e NDS eram novos para mim. A cada material e processo surgiam novas descobertas sobre o artesanato e a economia solidária. O grande desafio foi unir o universo das artes da academia a realidade deste artesanato, sem deixar que ele perdesse sua característica popular. Ao contrário do senso comum que considera a cultura popular como uma expressão espontânea do povo engessada no passado, nós a entendemos, assim como Canclini (1983), que seja a manifestação de uma camada social cujo acesso aos bens econômicos e culturais é desigual, isso comparado às classes favorecidas. Tanto a arte, ou seja, “arte popular” como também o artesanato pode ser enquadrado nessa realidade, pois são, normalmente, resultantes das práticas materiais tidas como populares, embora conservem, sobretudo, no processo de criação características que as tornam diferentes.
A interação social foi fundamental pra criar este diálogo, que além de ter rendido bons resultados práticos, criou um vínculo afetivo entre a equipe com os integrantes da GerAção POA. O depoimentos dos integrantes foi bastante gratificante, pois eles relataram que sentiram-se agentes projeto, tiveram uma participação ativa no cotidiano da cidade pesquisando e apresentando um produto diferenciado, ou seja, conseguiram expressar sua individualidade no processo coletivo. Como retorno, o grupo conseguiu obter reconhecimento pelo seu empenho e prazer em desenvolver o trabalho que trouxe-lhes crescimento pessoal, um indicador disso foi a venda de toda a produção, que também deixou muitos pedidos sem atender, pois não previam a excelente aceitação por parte dos consumidores, diferente do que ocorria nos anos anteriores. Para mim, o maior retorno foi descobrir talentos em um grupo bastante organizado, que esteve aberto para receber as minhas experiências e para passar tantas outras.

Continuidade do projeto e discussão

No primeiro ano, minha atuação como designer foi bastante ativa na colaboração de idéias e revisão dos resultados, mas percebi que seria possível que a atuação dos usuários fosse ainda mais ativa, caso tivessem acesso a subsídios que desenvolvessem a prática do design. Também pelo motivo de as ações da Incubadora não serem definitivas no grupo, pelo contrário, bjetivam a autogestão do coletivo, preparando para perpetuar a experiência futuramente.
Este processo é bastante lento e requer dedicação e prática contínua. Por isso, para este ano, continuo desenvolvendo outro projeto além da agenda, no qual o meu trabalho objetiva ampliar a autonomia da percepção visual em design dos usuários do serviço através da “Oficina do Olhar”, que explora-se a sensorialidade de diversas imagens e materiais, bem como estimula a discussão e perpetuação da experiência entre os próprios usuários. A exemplo, a oficina “Olhar a Cor”, em que levei como referência2, livros de estudos sobre as cores a obra do artista Helio Oiticica e levei elementos para vivenciar a cor com referência nas obras Parangolés3. O grupo se interessou bastante pela obra do artista e ao longo da exposição dos registros do seu trabalho foram surgindo dúvidas e levantadas questões críticas sobre a arte e a sociedade, resultando em um debate bastante produtivo entre os participantes.
Essa atividade, dedicou a maior parte do tempo a experiência lúdica e debates, mas ao final propus que o grupo pesquisasse na internet, imagens referentes a próxima agenda a ser produzida, identificando cores e possíveis combinações. Observei que muitos não acessavam a rede e tinham bastante dificuldade com computadores e com as novas tecnologias, que também deveriam ser desenvolvidas como importante ferramenta de autonomia de expansão do conhecimento.
A dificuldade de ser cooperativado e viver o trabalho na economia solidária aparece de diferentes maneiras. Ao longo do meu trabalho, percebo que as diversas limitações de aceso ao conhecimento por parte da população. Entre os usuários deste serviço, esta realidade é ainda mais flagrante, pois os transtornos psíquicos, em alguns casos, levaram a uma marginalização escolar, ao analfabetismo. Em algumas oficinas, percebi que havia um maior aproximação dos usuários, em outras ainda havia um grande distanciamento em questão de comprometimento.
Essas dificuldades devem ser supridas, na medida do possível, ao longo do trabalho através da organizações populares, em que o propósito é a ajuda mútua. Há uma tentativa de reversão deste quadro com a troca de saberes entre as distintas instituições e mesmo entre as organizações. Assim como nas universidades existem, ainda que escassas, iniciativas voltada para as organizações que pretendem criar alternativas fora do foco do capital. Reafirmanos que esta nova sociedade tem que mobilizar atitudes e ações dos seres humanos que não se explicam só pelo registro do interesse, ainda que de classe. Nesse sentido à que se percorrer um longo caminho, que afasta-se da burocratização das relações e que se ampliam os mecanismos e apropriação do conhecimento por aqueles que o buscam.

Notas:

*Thaís dos Santos Leite é aluna de Artes Visuais na Universidade Federal do Rio Grande do Sul
Integrante da Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares da UFRGS,

Brasil
e-mail: thaisleite2@gmail.com
1.
2. As referências foram as seguintes:
Hélio Oiticica. Centro de arte moderna da fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa.1999.

BUENO, Maria Lucina Busato. Tintas Naturais, uma alternativa à pintura artística. Ed. Universidade de Passo Fundo, Passo Fundo, 1989.

PEDROSA, Israel. Da cor à cor inexistente. Ed. Universidade de Brasília. Brasília, 1982.

3. Parangolé: objeto de arte formado com tecidos coloridos e materiais orgânicos para serem vestidos e vivenciados pelos interatores, que compõem a obra.

REFERÊNCIAS

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS (ABNT). NBR 6022 — Informação e documentação — Artigo em publicação periódica científica impressa — Apresentação. Rio de Janeiro, mai. 2003.

BARFKNECHT, Kátia Salete; MERLO, Álvaro Roberto Crespo; NARDI, Henrique Caetano. Saúde mental e economia solidária: análise das relações de trabalho em uma cooperativa de confecção de Porto Alegre. Universidade Federal do Rio Grande do Sul, RS: 2006

BARROSO NETO, Eduardo. Design e identidade cultural no artesanato. Para a primeira jornada Iberoamericana de Design no Artesanato. Fortaleza, 1999.

SCHMIDT, Carlos. Autonomia, mercado e reciprocidade: contradições e complementaridades no Movimento das Mulheres Camponesas (MMC). Universidade do Rio Grande do Sul, 2009.
PHILIPPINI, Angela. Mas o que é mesmo arteterapia? Revista Arteterapia, Imagens da transformação Vol. V, Pomar: 1998
SINGER, Paul. Uma utopia militante: repensando o socialismo. Petrópolis, RJ: Vozes, 1998.
Site:

MARTINS, Daniela Menezes; RIOS, Igor Goulart Toscano; BORGES, Fernando Henrique Moraes; FREITAS, Lucas Grassi; OTONI, Luiza Soares. Mínas Raízes, Artesanato, Cultura e design. Minas Gerais: 2009.

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