Gilmar Gomes
mestrando em Geografia – UFRGS
gilpoa2005@yahoo.com.br

1 Introdução

O momento no qual vivemos definido por Milton Santos como meio técnico-científico informacional, é marcado pelo processo de globalização que por sua vez é a expressão do capitalismo mundializado. Momento este no qual parte do planeta desfruta de todas as vantagens que o avanço técnico pode proporcionar enquanto milhares de outros sequer têm acesso a recursos básicos capazes de reproduzir a vida.
No Brasil assistimos a continuidade de um processo de inserção subordinada à nova ordem global. Essa nova ordem, ainda em formação, teve suas bases definidas na reunião realizada em novembro de 1989, que resultaram no chamado Consenso de Washington, cujo receituário, em bases neoliberais, recomenda a volta do Estado mínimo. De supostas relações multipolares (na verdade unipolar, sob a hegemonia estadunidense), apoiada na teoria da modernidade, está sob o domínio das grandes empresas transnacionais, que têm a seu serviço, além dos governos de seus países de origem, todos os organismos e agências multilaterais, como BIRD – Banco Mundial, OCDE – Organização de Cooperação para o Desenvolvimento, a OMC – Organização Mundial do Comércio e o FMI -Fundo Monetário Internacional, entre outros.
Foi sob Collor que esse processo de inserção subordinada do Brasil ao cenário internacional de globalização se iniciou. Ele, que só dispunha de uma das três condições para implementação desse processo com êxito – a incipiente democracia brasileira, iniciou a abertura e tentou a estabilização, inclusive com confisco de poupança, mas não teve sucesso. Apesar de ter lançado as bases do modelo atual, através do envio ao Congresso da lei de patente, de concessão de serviço público, de abertura dos portos, da privatização, com abertura da economia e mudanças na administração pública e na previdência, Collor não logrou consolidar esse processo, sendo cassado pelo Poder Legislativo por prática de corrupção.
Medidas como a abertura às importações e privatizações foram intensificadas durante o governo FHC sendo atualmente gerenciado pelo governo Lula.
Este processo que foi comum aos demais países de economia periférica é reflexo mas também produtor de uma série de mudanças ocorridas no âmbito do Estado-Nação e seu projeto de desenvolvimento na América Latina.
O processo de adequação estrutural e territorial do modelo de desenvolvimento brasileiro – nacional desenvolvimentismo, cuja criação data do Pós-30, que ao nível do Estado passou por várias formas de governabilidade, com períodos curtos de democracia cercado por dois longos período de ditadura, vem culminar nos acontecimentos dos anos 90 RÜCKERT (2000).
O Brasil possui um imenso território, diz-se que é um país de dimensões continentais. Implica, seja do ponto de vistas da geografia ou da economia, compreender as dinâmicas econômicas-geográficas-políticas que permitiram o que Samira (2005: 7197) chamou de “uso privilegiado do território”. Ou seja, para que o país se adequasse às demandas do capitalismo mundializado (desde a ocupação no séc XVI até os dias de hoje), foi necessário a instauração de territórios preferenciais para a potencialização das dinâmicas econômicas que interessam ao Capital.
Ainda de acordo com Samira, “o uso privilegiado do território pelo sistema de ações hegemônico das macro empresas e do Estado, cria nos lugares, quaisquer escala que o tomemos, dinamismo de integração, mas também de desagregação – numa palavra: uma tensão política”. Samira (2005: 7197)
Se concordarmos com Samira de que o sistema de ações hegemônico da economia e política se fortaleceu a partir e pelo enfraquecimento das “bases populares” poderemos perceber nesse processo aquilo que Haesbaert chama de desterritorialização pois “ainda que não haja total solidariedade de interesses entre os setores que estariam ganhando com a financeirização / extroversão da economia” Samira (2005: 7197) as iniciativas locais, as economias locais, regionais e meso-regionais têm sofrido com a desagregação, fragmentação, enfim, desterritorialização no processo de adequação do País ao capitalismo global.
Importa saber que este não é um caminho de uma única via e que toda desterritorialização é acompanhada de uma reterritorialização e que estes movimentos localizam-se na esfera da flexibilização territorial da condição atual (pós-moderna?) pela qual passam os estados inseridos na nova ordem mundial. Haesbaert (2000).
Isto configura o que Haesbaert chama de multerritorialidades, tema sobre o qual retornaremos adiante neste ensaio.
Não sendo o processo de globalização caminho de uma única mão, no contexto da desterritorialização podemos perceber o surgimento de outras iniciativas econômicas ou político-sociais que engendram formas (novas ou não) de solidariedade capazes de criar o “território comum”, que “implica também uma existência no lugar” e “usa o território segundo sua própria racionalidade”. Samira (2005: 7197)
Iniciativas, como as que compõem o universo da economia solidária, dentro de um contexto de economias alternativas ao sistema hegemônico são as que interessam a este artigo e que formam o que Milton Santos chamou de “a revanche do território” que por se constituírem em idéias e práticas geradas a partir da organização daqueles setores ou melhor “aquela parte da sociedade que excluída do processo de globalização, também habita o território nacional”, por suas ações criadoras de autonomia na produção da vida, irão instaurar uma outra ordem, soberana e cidadã que nas palavras de Milton Santos constituem “um dique contra o capital pleno” Santos (2004:186)

2 A Economia Solidária: introdução e possibilidades.

Podemos definir a economia solidária como um conjunto de atividades em áreas como produção, prestação de serviços e comercialização, organizados por empreendimentos coletivos, solidários e autogestionários que podem tomar a forma de cooperativas ou associações cujo objetivo é a geração de trabalho e renda e o desenvolvimento de novas relações de produção.
Na literatura podemos verificar a possibilidade da dilatação do conceito por se tratar de um assunto relativamente novo onde os formuladores teóricos estão vivenciando a práxis em um processo de elaboração e ressignificação do referencial teórico.
Outras práticas e formulações mais recentemente incorporadas dão conta do surgimento de iniciativas que podem ser incluídas no universo da economia solidária. Moedas sociais, clubes de trocas, bancos comunitários, comércio justo, consumo consciente, crédito solidário e, principalmente as redes, sejam de produção, beneficiamento, comercialização ou organização política.
A discussão que gira em torno da definição do que é economia solidária também é acompanhada da discussão sobre quais caminhos esta deve seguir e que impacto tem em relação ao sistema produtor de mercadorias.
Em linhas gerais, identificamos três vertentes:
a)A de que a economia solidária pode ser pensada como um modo de produção que pode competir com o mercado;
b)A de que a economia solidária, enquanto modo de organização da economia é capaz de co-existir e se integrar ao mercado;
c)A que vê a economia solidária como um movimento social que “a depender da identidade que assume e das articulações com os demais movimentos sociais”, se constituiria, “numa das formas de resistência e superação do capitalismo”1. SCHMIDT (2009)
Por enquanto consideramos importante definir a economia solidária como um conjunto de ações instaurador de uma forma de apropriação do trabalho no território.
Partimos da constatação de que o território nacional é apropriado hegemonicamente pelo capitalismo e seus agentes porém este processo de territorialização é hegemônico mas não homogêneo. Formas de territorialização periféricas ou mesmo marginais mas também alternativas, podem ser localizadas nas múltiplas formas de resistência que a população cria para gerar trabalho e renda e assim, perpetuar a vida.
O surgimento da economia solidária no Brasil situa-se entre meados da década de 80 e início de década de 90 no bojo de crises que impactaram todo o sistema capitalista mundial. Nos paises de economia periférica o contexto está diretamente relacionado à crise do emprego que evolui para uma situação de desemprego estrutural.
Sobre a crise do emprego no contexto da crise estrutural capitalista um importante debate é feito por Ricardo Antunes polemizando com André Gorz que em 1980 publica a obra “O fim do Proletariado”, Antunes denuncia um certo “oportunismo” ideológico que gerou outras teses semelhantes à de Gorz. De acordo com Antunes, Gorz: “capturando uma tendência em curso que indicaria uma significativa redução do operariado industrial nas sociedades capitalistas avançadas, o sociólogo francês vaticinou o fim do proletariado, com todas as conseqüências teóricas e políticas desta formulação”. Antunes (1995: 9)
Na revanche, Antunes publica Adeus ao Trabalho?2 Sob a forma de uma pergunta problematizadora à obra de Gorz. Estaria mesmo a classe-que-vive-do-trabalho condenada a desaparecer? A obra de Antunes oferece perguntas a partir de um olhar desde um território particular no contexto de um mundo marcado por uma globalidade desigualmente desarticulada. ANTUNES (1995)
Este novo contexto de acumulação, denominado de especialização flexível, acumulação flexível tem no sistema criado nas fábricas Toyota a principal referência.
Este contexto foi definido tanto pelo grande impacto na produção e consumo quanto na relação entre trabalhadores e patrões a partir das fortes derrotas sofridas pelo movimento operário mundial. Conquistas históricas dos trabalhadores que acumulavam vitórias neste campo desde a II Guerra foram perdidas no interior do processo da acumulação flexível. E o próprio emprego desapareceu.
No Brasil, o impacto das transformações ocorridas durante este período significou, além daquilo que Samira, chama de “uso privilegiado do território”, o processo que Spósito denomina de deslocalização. SPÓSITO (2008) Este processo gera arranjos no âmbito da localização de empresas e grupos capitalistas criando territorialidades novas desterritorializando produção e consumo.
As desterritorializações ocorridas nesse período modificaram a geografia da produção no Brasil expressando no ambiente rural, a intensificação dos monocultivos (em especial de commodities) com a conseqüente desestruturação da agricultura camponesa e de pequenos e médios produtores e, no ambiente urbano, a exigência de maior especialização técnica dos trabalhadores para as novas formas de produção, empurrando grande parte do contingente egresso do modelo fordista para a margem do emprego formal. O fim deste modelo aprofundou a crise do emprego e jogou milhares de trabalhadores na exclusão, aprofundando carências sociais e resultando nos centros urbanos o aumento do número de famílias que irão habitar favelas gerando urbanizações precárias quase sempre associadas a ocupações em áreas degradadas como beira de cursos de água, encostas de morros colocando em risco as pessoas e o ambiente.
Ocorreram deslocalizações e desestruturações nas indústrias que ainda se mantinham como nacionais que resultou na falência de muitas delas e no fechamento de plantas produtivas de algumas outras.
Durante esse processo, novas territorializações surgiram com a retomada das plantas industriais fechadas pelo conjunto de trabalhadores organizados sob a forma de cooperativas, recuperando essas fábricas a partir da lógica da economia solidária. São as empresas de autogestão que gerou a Associação dos Trabalhadores em Empresas Autogestionadas (ANTEAG).
Parte do contingente de trabalhadores desempregados, ainda na perspectiva da economia solidária, criaram outras tantas organizações produtivas, de serviços ou de comercialização nas cidades gerando pequenas oficinas, cooperativas e associações de vários ramos da economia.
Todo esse processo comentado acima repercutiu no campo onde desterritorializações e reterritorializações continuam ocorrendo sendo que abriu espaço para a retomada da luta pela terra que se configura também como resistência ao latifúndio e aos monocultivos. A denominação agricultura familiar cunhada pela ideologia da revolução verde para domesticar a consciência camponesa é problematizada hoje pelos trabalhadores do campo cuja expressão pode ser encontrada no enfrentamento aos monocultivos que desterritorializam a produção de alimentos a aprofundam a expulsão do camponês de seus territórios3. A luta contra a ocupação do campo pelas papeleiras e a desconfiança frente ao programa de agro-combustíveis do governo Lula é um indicador claro de que os processos de desterritorialização em curso não se fará sem resistências.
Outro aspecto importante que potencializa ações de economia solidária foi o surgimento das redes.
O conceito de rede é hoje amplamente utilizado por várias áreas do conhecimento, mas ganhou expressão desde seu surgimento ligado à tecnologia da informação na configuração do atual sistema técnico.
Na ciência geográfica encontramos a expressão, quase sempre, ligada a território. Embora ainda seja necessário recuperar pressupostos teóricos que estariam ausentes na articulação rede-território. UEDA (2008)
Também Gislene dos Santos ao estudar as migrações percebe o surgimento de uma problemática nova no campo da Geografia que articule rede e território. SANTOS (2008)
Jodival Costa lembrando Raffestin, designa a rede como uma categoria fundamental para entender processos contemporâneos de apropriação e domínio do espaço. “Ela (a rede) se tornou uma forma especial de exercício de poder no território”. JODIVAL (2008)
Para os formuladores da ecosol, as redes ganham destaque por serem capazes de articular o trabalho coletivo ao consumo4. De acordo com Mance, as redes são instrumentos gerados pela organização coletiva do trabalho e consumo que poderão alavancar as iniciativas ligadas à economia solidária para um patamar de importância na sociedade brasileira. MANCE (1999)
As redes ocupam um determinado espaço geográfico.
O espaço geográfico, palco onde se desenrolam as evoluções destas redes, nos permite pensar não o espaço abstrato e conceitual mas o mesmo como espaço vivido. De acordo com Rego, o espaço vivido:
“(…) pode ser entendido como a rede de manifestações da cotidianidade desse sistema em torno das intersubjetividades que são, por sua vez, as redes nas quais se constituem as existências individuais – no trabalho, na escola, na família, nas outras formas da vida societária.”(2000: 7).
Considerando a distribuição no espaço geográfico das iniciativas de ecosol podemos dizer que a qualificação do sentido de rede deve ser pensada para além das formas utilizadas pela economia standart mas não necessariamente ignorando o potencial construtivo das redes técnicas capitalistas no que podem informar a ecosol das possibilidades de sua utilização ou o que a ecosol pode aprender com as redes.
Adiante retomaremos a discussão sobre redes ao evidenciarmos exemplos de redes técnicas a serviço da economia solidária e, em especial, na análise da cadeia produtiva do algodão ecológico (REDE JUSTA TRAMA).

3 A Economia Solidária como territorialidade.

Para dar forma a proposição que fizemos no título deste capítulo é necessário esclarecermos de onde partimos desde o referencial teórico à apropriação dos conceitos presentes neste artigo a saber: espaço, território, territorialidade e economia solidária.
Na análise do que consideramos uma apropriação do território no desenvolvimento economia solidária, nos utilizaremos das produções teóricas de Raffestin, Sacks, Saquet, Spósito, Haesbaert e Heidrich, dialogando com as proposições da Geografia Política e da Economia Política.
Para a conceituação de Espaço partiremos da definição de Levebvre, de cunho materialista: “do espaço não se pode dizer que seja um produto como qualquer outro, um objeto ou uma soma de objetos, uma coisa ou uma coleção de coisas, uma mercadoria ou um conjunto de mercadorias. (…) Estaria essencialmente vinculado com a reprodução das relações sociais de produção.”Rückert (2005: 34)
Imaginamos o espaço como propôs Milton Santos a partir do conceito de formação sócio-espacial. CASTRO (1996) Pois o conceito de espaço deve ser pensado como fator social e não como um reflexo social. Em um estudo de caso, Milton Santos ressalta o papel do Espaço como fator ativo, uma instância da sociedade, como a economia, a cultura e as instituições.5 SANTOS (1990)
Concordamos com Raffestin que o espaço e território não são termos equivalentes. “O território se forma a partir do espaço, é resultado de uma ação, conduzida por um ator sintagmático (ator que realiza um programa) em qualquer nível.
Ao se apropriar de um espaço concreto ou abstratamente (por exemplo, pela representação), o ator “territorializa” o espaço. RAFFESTIN (1993).
Desse modo, tanto Santos quanto Raffestin ressaltam o caráter de espaço usado elevando o conceito de espaço geográfico à categoria “universal, preenchida por relações permanentes entre elementos lógicos encontrados através da pesquisa do que é imanente” Spósito (1996: 9)
Sendo espaço social, o espaço geográfico é apropriado pelo e a partir da projeção de um trabalho. RAFFESTIN (1993)
Perceber o desenvolvimento da economia solidária como uma apropriação do espaço social no interior do mundo do trabalho, transformando as relações produtivas e de consumo que são, sobretudo territoriais, nos incita a propor a economia solidária como uma territorialidade.
Definida como “um conjunto de relações (…) que se originam num sistema tridimensional sociedade-espaço-tempo em vias de atingir a maior autonomia possível, compatível com os recursos do sistema. Raffestin (1993: 160) Analisaremos a seguir a espacialização da economia solidária, neste caso, a partir do exemplo da cadeia produtiva do algodão ecológico – a Rede Justa Trama.
A Justa Trama é a marca da Cadeia Ecológica do Algodão Solidário que é integrada por trabalhadores organizados em empreendimentos de economia solidária.
As cooperativas e associações que formam a Rede cobrem todos os elos d indústria têxtil, desde o plantio, beneficiamento até a confecção de artigos para o consumo na ponta final da cadeia, roupas, bolsas, etc.
De abrangência territorial nacional, a cadeia tem início no plantio do algodão no Ceará realizado por agricultores familiares articulados pela ADEC6.
Do ponto de vista da produção, houve emprego de técnicas agro-ecológicas e o resgate do plantio do algodão arbóreo que havia sido relegado pela lógica dos pacotes tecnológicos autoritários da “moderna agricultura” patrocinada pela Revolução Verde.
Esta mudança de matriz, bem ao gosto do autoritarismo vigente, foi realizado sem que se tivesse a preocupação prévia com o zoneamento climático muito menos com políticas públicas diferenciadas restando ao camponês do nordeste brasileiro a perda da autonomia e da tradição cultivada por este segmento.
No bojo das medidas adotadas pela agricultura modernizada está o uso subsidiado de crédito bancário, que permite alto consumo de fertilizants químicos concentrados e venenos sintéticos.
Os interesses das transnacionais que, desde os anos 60, acumulavam altos lucros na comercialização de venenos (baseados na agricultura praticada no clima temperado do sul do país) fez expandir este modelo para o nordeste que começou, através de propaganda sobre produtividade, a destruir áreas de sequeiro, onde predominava o sistema do algodão mocó. Sem levar em consideração a tradição de técnicas de plantio do sertanejo que não plantava o algodão como um cultivo, mas dentro de um sistema de poupança de água e sustentação da produção de alimentos, a partir da sua realidade de semi-árido.
É a partir da problematização desta realidade aliado à demanda por algodão orgânico presente na Europa hoje, que os idealizadores da Justa Trama deram início a montagem da Cadeia Produtiva do Algodão Agro-ecológico.
A cadeia dá seqüência com o ingresso de empreendimentos de fiação e tecelagem em Minas Gerais, culminando com a entrada de duas cooperativas do sul do país que transformam o tecido em artigos de confecção.7
Logo é incorporado um outro empreendimento, a Cooperativa Açaí, localizada em Porto Velho – RO, que participa da extração de sementes e tinturas que fazem o ornamento das peças em forma de bordados, botões e outros acessórios.
É possível ver nos processos de apropriação do território pela Justa Trama os elementos de desterritorialização ocorridos no interior do mundo do trabalho nas décadas de 60 à 90, tanto pelas transformações impingidas às formas de produção do mundo camponês, na introdução dos cultivos dependentes dos defensivos e insumos industriais, quanto pela expulsão dos agricultores do campo pela nova agricultura praticada.
O mesmo ocorre no ambiente urbano, pois a adesão de muitos trabalhadores às formas alternativas de produção presentes na economia solidária, denunciam um contingente de mão-de-obra disponível (desterritorializadas) egresso do modelo fordista que entra em crise nesta época, colocando “na rua” milhares de desempregados.
O processo de apropriação do espaço produtivo por formas alternativas de produção, co-existindo e existindo mesmo no interior do mundo do modo de produção hegemônico, nos permite pensar este processo como multiterritorial.
Estes territórios trazem suas marcas percebidas como formas de representação de domínios que os atores imprimem no espaço que ocupam (HAESBAERT 2008).
Para Haesbaert a multiterritorialidade não constitui novidade pois, “Se o processo de territorialização parte do nível individual ou de pequenos grupos, toda a relação social, implica uma interação territorial, um entrecruzamento de diversos territórios.” Haesbaert (2008: 28).
Este fenômeno pode ser percebido tanto visto em sua pluralidade quanto a formas outras de relação territorial como territórios justapostos, territórios encaixados e territórios em conflitos.
Ora a economia solidária se caracteriza por um conjunto de relações sócio-produtivas que alteram as relações sociais de produção e de consumo presentes no sistema hegemônico. Subvertendo a lógica do lucro a constituição de empreendimentos de economia solidária parte de uma outra lógica, dando novo sentido à palavra economia que conhecemos atualmente, modificada de seu sentido original. Ainda que não haja total concordância quanto ao conceito ou mesmo à denominação desta forma alternativa de produção da vida (economia popular e solidária, sócioeconomia solidária, economia social ou economia de comunhão), os autores concordam que este modo de organização do trabalho e da produção implica em recuperar o
sentido original do vocábulo economia, que em grego significa gestão, o cuidado de casa.
Em um importante debate sobre a natureza da economia solidária, Carlos Schmidt refere que:
“Os intelectuais que estudam a economia solidária têm, em vários aspectos, convergências e ao mesmo tempo amplas divergências. Estas dizem respeito a questões táticas, mas também estratégicas, ou seja, se referem ao mesmo tipo de transformação almejada.8” (2009:12)
No que se refere às convergências, concordam que, “no plano microeconômico, a ecosol tem objetivos diferentes da empresa capitalista cujo objetivo principal é a maximização da taxa de lucro, enquanto que a primeira busca, além da geração de trabalho e renda, a participação de todos na gestão e o pleno desenvolvimento pessoas e social dos participantes do empreendimento solidário”. Schmidt (2009:12).
No que se refere à gestão, maioria dos autores propõe a expressão autogestão.9
A autogestão pode ser entendida como o conjunto de procedimentos técnicos e administrativos realizado pelos empreendimentos de economia solidária que devem ser apropriados pelo conjunto dos participantes transformando o caráter da verticalidade do poder próprio da empresa capitalista para um conhecimento e gestão horizontal em que todos os processos de decisão são realizados pelo conjunto de atores no âmbito da empresa autogestionária.
Alguns autores querem contrapor esta questão afirmando que na especialização flexível, em especial no Toyotismo, os trabalhadores estariam recuperando o poder decisório do fazer em seu trabalho. Este “resgate” estaria ligado aos novos processos produtivos gerados pelo avanço tecnológico, pela descentralização ocasionando o fim da organização fordista de produção.
Que a mobilidade geográfica e a superacentuação da flexibilidade dos mercados de trabalho elevariam a condição de trabalho subalterno a uma outra condição em que o trabalhador define os processos produtivos, em alguns casos, produzindo coletivamente, como é o caso das empresas Toytota.
Ricardo Antunes problematiza esses supostos avanços de autonomia no mundo do trabalho capitalista ao afirmar que a “substituição do fordismo pelo toyotismo não deve ser entendida, (…) como um novo modo de organização societária.” Antunes (1195:33) O autor minimiza os “progressos” das formas flexíveis de produção alertando que, principalmente no que se refere aos processos de diminuição entre elaboração e execução e entre concepção e produção, “só é possível porque se realiza no universo estrito e rigorosamente concebido no sistema produtor de mercadorias, do processo de criação e valorização do capital”. Antunes (1995:33).
Desta forma anda permanece o estranhamento do trabalho “a desidentidade entre indivíduo e gênero humano constatada por Marx nos Manuscritos”, pois o resultado deste processo de “trabalho corporificado no produto” se mantém ainda alheio e estranho ao produtor permanecendo sob todos os aspectos, o “fetichismo da mercadoria”. Antunes (1195:36)
A realização da autogestão no interior nos empreendimentos de economia solidária possibilita, de forma radicalmente diferente do que ocorre nos modelos da especialização flexível, o resgate da centralidade do trabalho na vida humana.
Ressalta “a capacidade teleológica do ser social” concebendo o trabalho como protoforma, como forma originária da atividade humana. ANTUNES (1995)
É no trabalho coletivo a autogestionado que se pode realizar a passagem do universo individual para o universo de uma sociedade de fato coletiva e não uma coleção de indivíduos.
A experiência da economia solidária pode criar as bases para que a classe-que-vive-do-trabalho possa realizar-se inteiramente desalienando-se e desalienando a sociedade.
Esta passagem está no centro dos debates aos quais nos referimos anteriormente. Quanto ao potencial da economia solidária como germe “de construção de uma nova sociedade sem classes e socialista” Schmidt (2009: 9).
Nos parece que, ainda que não vislumbremos esta passagem tão claramente, há indícios claros do estabelecimento de um território qualitativamente novo e impregnado de formas novas de produção da vida, onde supera-se o estranhamento típico da sociedade produtora de mercadorias permitindo à classe-que-vive-do-trabalho imaginar o caminho para uma nova sociedade que dependerá da capacidade organizativa dos protagonistas e apoiadores da economia solidária de fortalecerem estas práticas no contexto de um movimento social,quem inevitavelmente passa pela conquista de políticas públicas no interiro do estado capitalista. SCHMIDT (2009)
No artigo “O retorno do território”, Milton Santos refere-se à possibilidade de imaginarmos o território (que é uma noção que ele considera herdada “modernidade incompleta”) um lugar de possibilidades que, assim como “antes tudo não era, digamos assim, território “estatizado”, hoje tudo não é estritamente “transnacionalizado”. Este território habitado é capaz de permitir o surgimento de “novas sinergias”. Santos (2005: 255)
Nós concordamos que, ainda que não haja possibilidade de expressarmos a economia solidária como um avanço capaz de transformar a sociedade imediatamente, seu aparecimento e sua forma de apropriar o fazer do trabalho é inteiramente novo e, mesmo convivendo com a forma hegemônica, transforma o território e constitui uma territorialidade singular.
Haveria conflito entre essas duas formas de apropriação? Não estamos totalmente certos disso mas concordamos com Álvaro Heidrich que “O princípio da territorialidade não implica necessariamente exclusão ou conflito em relação a outras territorialidades, mas apenas quando coincidir com o objeto de sua ocorrência” Heidrich (2008: 273)
A inserção da Rede Justa Trama ocupa uma vasta área do ponto de vista geográfico mas uma pequena fatia da riqueza gerada pelo conjunto da sociedade sob a lógica hegemônica.
Esta área ou extensão, como se refere Heidrich, permite aos atores da Rede não somente a ocupação mas também o uso do território criando territorialidade. HEIDRICH (2008). Pois, como se refere Heidrich “O território e a territorialidade consistem em expressão geográfica que não são simples ocorrências, posição ou distribuição de objetos no espaço. Não é simples paisagem”. Heidrich (2008: 274) Está presente a ação fixação, uso, posse.
As diversas escalas presentes na análise da Justa Trama demonstram que ainda que vá “do âmbito das sociedades do indivíduo ao âmbito das sociedades políticas”. Heidrich (2008:274). O processo todo pode ser visto como uma territorialidade ou territorialidades em conexão de pontos (redes) formando uma imagem complexa: a articulação dos diversos empreendimentos que formam a Justa Trama.
A forma como os protagonistas que geram a rede desde o plantio do algodão até a confecção de produtos beneficiados, mostra ocupação e transformação da extensão e ainda que “a ocupação em si não significa ter domínio” Pode-se tê-lo, alerta Heidrich.

4 Conclusão

Neste ensaio tentamos discutir o surgimento e a manifestação da economia solidária como uma territorialidade a partir do estabelecimento de redes de organização do trabalho através de formas absolutamente diferentes da produzidas pelo capital. Em que pese se constituírem como formas territoriais de apropriação do espaço as iniciativas capitalistas como suas redes, por exemplo, buscam tão somente o crescimento econômico e a extração da mais-valia, enquanto que as redes de economia solidária a relação econômica não é pautada pela regulação do mercado mas sim por uma lógica solidária onde o conjunto de participantes procura fortalecer os elos mais fracos da cadeia isto se expressa nas relações de preço.
Permite-se assim que se constitua entre os agricultores, por exemplo, uma territorialidade que estava se extinguindo com a hegemonia da revolução verde.
O território sob a economia solidária tem muito mais chances de alcançar a idéia de um desenvolvimento endógeno, gerador de riqueza nos lugares e emancipador dos laços que oprimem os trabalhadores.
Para tanto deverão seus participantes tomarem consciência de que travar uma luta pela valorização do trabalhador no território requer uma organização que ainda não pode se dizer que está presente em nossa realidade mas todos os indicativos permitem dizer que é possível portanto, capaz de ser alcançado.

REFERÊNCIAS

ANTUNES, Ricardo. Adeus ao trabalho? Ensaio sobre as metamorfoses e a centralidade do mundo do trabalho. São Paulo: Cortez, Campinas, SP: Editora da Universidade Estadual de Campinas,1995.
CASTRO, Iná Elias de. et al. Geografia: Conceitos e temas. Rio de Janeiro. Bertrand Brasil, 1996.

COSTA, Jodival M. Redes técnicas e uso privado do território na Amazônia: o caso
da Ferrovia dos Carajás da Companhia Vale do Rio Doce (1997 – 2006). Porto Alegre – dissertação de mestrado PGEA UFRGS 2008.

HAESBAERT, Rogério. Dos múltiplos territórios à multiterritorialidade. In: HEIDRICH, A. L., COSTA, B. P. da., PIRES, C. L. Z., UEDA, Vanda (Orgs) A emergência da multiterritorialidade: a ressignificação da relação do humano com o espaço.Canoas: Ed. ULBRA; Porto Alegre: UFRGS Editora, 2008, pp 19 – 36.

HEIDRICH, A.L. Conflitos territoriais na estratégia de preservação da natureza. In: SAQUET, M. A., SPOSITO, E. S. (Orgs) Territórios e territorialidades: teorias, processos e conflitos. 1. ed. São Paulo: Expressão Popular: UNESP. Programa de Pós-Graduação em Geografia, 2009.

KAHIL, Samira P. Usos do território: uma questão política. Anais do X Encontro de Geógrafos da América Latina. Universidade de São Paulo. 20 a 26 de marcos de 2005.

MANCE, Euclides A. A revolução da redes. A colaboração solidária como uma alternativa pós-capitalista à globalização atual. Petrópolis. Rio de Janeiro: VOZES, 1999.

RAFFESTIN. Claude. Por uma geografia do poder.São Paulo: ÀTICA, 1993.

RUCKERT. A. Reforma do Estado, reestruturações territoriais, desenvolvimento e novas territorialidades. In HEIDRICH, A. L., COSTA, B. P. da., PIRES, C. L. Z., UEDA, Vanda (Orgs) A emergência da multiterritorialidade: a ressignificação da relação do humano com o espaço.Canoas: Ed. ULBRA; Porto Alegre: UFRGS Editora, 2008, pp 119 a 136.
REGO, N. (Org.) ; SUERTEGARAY, D. M. (Org.) ; HEIDRICH, A. (Org.) Geografia e Educação: geração de ambiências. 1. ed. Porto Alegre: Editora da Universidade/UFRGS, 2000.

SABOURIN, Eric. Camponeses do Brasil: entre a troca mercantil e a reciprocidade. Rio de Janeiro: GRAMOND, 2009.

SANTOS. Gislene A. Redes e fronteiras; o caso da migração de sul-catarinenses para os EUA. In HEIDRICH, A. L., COSTA, B. P. da., PIRES, C. L. Z., UEDA, Vanda (Orgs) A emergência da multiterritorialidade: a ressignificação da relação do humano com o espaço.Canoas: Ed. ULBRA; Porto Alegre: UFRGS Editora, 2008, pp 85 a 100.

SANTOS, Milton. Metrópole corporativa fragmentada: O caso de São Paulo. São Paulo: NOBEL: Secretaria de Estado da Cultura, 1990.

________. A natureza do espaço: técnica e tempo, razão e emoção. São Paulo: HUCITEC, 2004.

_________. O retorno do território. En: OSAL : Observatorio Social de América Latina. Año 6 no. 16 (jun.
2005- ). Buenos Aires : CLACSO, 2005- . — ISSN 1515-3282 Disponível em: Acesso em: 17 ago 2009.

SCHMIDT, Carlos. A economia solidária: panacéia do capitalismo ou um caminho para o socialismo? In NOVAES, H. T., SCHMIDT, C. (Orgs) Economia solidária e transformação social: rumo a uma sociedade para além do capital. Porto Alegre: Ed.da UFRGS, 2009.(no prelo)

SPOSITO, E. S. A noção de território: uma leitura pela noção de desenvolvimento.
In HEIDRICH, A. L., COSTA, B. P. da., PIRES, C. L. Z., UEDA, Vanda (Orgs) A emergência da multiterritorialidade: a ressignificação da relação do humano com o espaço.Canoas: Ed. ULBRA; Porto Alegre: UFRGS Editora, 2008, pp 63 a 76.

Anúncios